
Antologia Trans
Apresentação - Aquilo que nutrimos
O corpo da Antologia Trans começou a ser nutrido junto ao propósito inicial do Cursinho Popular Transformação: ser um espaço de educação popular voltado para pessoas trans, travestis e não-binárias. Sabíamos que a educação formal, como tantas outras instituições hegemônicas, havia falhado com estas pessoas, sendo parte da cadeia que ataca suas subjetividades, reforça a discriminação e alimenta a subsequente exclusão de espaços de trabalho formal, saúde e sociabilidade. Ao mesmo tempo, entendíamos o ingresso na Universidade pela população T como uma maneira de erodir as estruturas de poder.
Queremos ser autoras e autores de um espaço em que a aprendizagem derive dos discursos das educandas e dos educandos e dos sentidos que elas e eles atribuem ao mundo. Buscamos, ainda, uma educação que estivesse de fato a serviço de seus direitos, sua cidadania e suas ambições. Por isso, as aulas têm sido voltadas para o ENEM, mantendo, paralelamente, uma linha de atuação focada na produção cultural, formação crítica e nas ferramentas de afirmação de identidade.
Como sonhar e, ao mesmo tempo, intervir? A poesia representou, para nós, a interface entre estas duas possibilidades de ação política. Ela é o discurso que emerge das doloridas vivências T em uma sociedade cisgênera, mas que se ergue em resistência, em potência. Consolida o domínio sobre a palavra e sobre si. O poder não é algo que se atinge ao final de um caminho, nem é algo que está fora de nosso alcance. Ele está aqui, emanando de nossas articulações, nossos espaços e nossas palavras.
Quando o Cursinho iniciou suas aulas, em agosto de 2015, no bairro da República, em São Paulo, a grade já continha aulas de Poesia. Mais tarde, ao sermos contemplados pelo Programa VAI, da Prefeitura de São Paulo, pudemos realizar também Oficinas de Poesia. Foram 44 textos poéticos produzidos nesses encontros, que geraram Aquilo que veio de nós.
Em dezembro de 2015 realizamos a primeira edição do TRANSarau, evento cultural que, com o apoio do VAI, cresceu e se afirma como um dos mais legítimos de visibilidade e resistência da população T e periférica da cidade. Agora, a Antologia Trans segue celebrando a franca realização de nosso propósito.
Com o objetivo de ampliar o protagonismo das pessoas T e seu acesso ao mercado literário e editorial, abrimos o espaço Aquilo que a nós veio, composto por 18 textos que recebemos e estão aqui publicados. A abertura alcançou ilustradoras e ilustradores que enviaram imagens para a capa e o interior do livro.
As palavras brincam ora de amor, ora de revolução. Nutrir, organizar, publicar, ler e mergulhar em um livro feito por 30 poetas e 2 ilustradores T significa fortalecer as vias duradouras da educação e da cultura pelas quais se realiza uma sociedade justa para todas as vozes.




